O encontro de Jesus com os enfermos – Jesus luta contra o mal, busca derrotá-lo e dar saúde às pessoas. Ele se apresenta como “médico” (Mc 2,17) e a sua atividade curativa está dentro da finalidade inicial da sua missão: anunciar o Reino de Deus. Para isso busca ser canal do poder de Pai através do espaço dado ao silêncio e solidão reservados à oração.
Naquele tempo, 29Jesus saiu da sinagoga e foi, com Tiago e João, para a casa de Simão e André. 30A sogra de Simão estava de cama, com febre, e eles logo contaram a Jesus. 31E ele se aproximou, segurou sua mão e ajudou-a a levantar-se. Então, a febre desapareceu; e ela começou a servi-los. 32À tarde, depois do pôr do sol, levaram a Jesus todos os doentes e os possuídos pelo demônio. 33A cidade inteira se reuniu em frente da casa. 34Jesus curou muitas pessoas de diversas doenças e expulsou muitos demônios. E não deixava que os demônios falassem, pois sabiam quem ele era. 35De madrugada, quando ainda estava escuro, Jesus se levantou e foi rezar num lugar deserto. 36Simão e seus companheiros foram à procura de Jesus. 37Quando o encontraram, disseram: “Todos estão te procurando”. 38Jesus respondeu: “Vamos a outros lugares, às aldeias da redondeza! Devo pregar também ali, pois foi para isso que eu vim”. 39E andava por toda a Galileia, pregando em suas sinagogas e expulsando os demônios.
A cura da febre
Um estudante de medicina retornou contente de um exame. A primeira pergunta que lhe fizeram era prática: o que teria feito se fosse chamado por um doente com febre alta? Sabia que teria respondido mal enumerando logo os diversos medicamentos que servem para diminuir a temperatura. Por isto respondeu que a primeira coisa que teria buscado era quais foram as causas da febre. Depois desta prudente resposta, seguiram outras perguntas particulares, que não eram difíceis.
Não precisamos ter estudado medicina para saber que a febre existe. Cada pessoa, em algum momento já a teve, assim cada um de nós pode descrevê-la. Começa com uma fraqueza, se treme com o frio. Depois se cai de cama e sente-se calor. Existem casos em que a febre sobe demais e o doente balbucia cosias insensatas. Como disse o estudante de medicina as causas são várias. Freqüentemente é causada por um micróbio que difunde uma infecção. Penetra em nós, se multiplica e não resta mais nada a fazer do que tentar vencê-lo.
Como se manifesta na vida espiritual algo semelhante? Os psicólogos falam de uma idéia fixa que alguém faz de si. Uma vez um estrangeiro disse a um empregado que mais cedo ou mais tarde estaria formado. Ele aceitou esta sugestão sem nenhum fundamento, acreditou e começou a desenvolvê-la. Notou como de manhã algumas pessoas o saldavam no escritório, segundo ele não com um sorriso, mas com um olhar desconfiado. “Evidentemente sabem alguma coisa”, pensou. Ao invés o porteiro o saudou com muita gentileza. “Claramente por compaixão”. Estas suspeitas aumentam sempre mais até quando se manifesta a febre espiritual. O primeiro sinal é a fraqueza. Perde o gosto do trabalho de cada dia. Treme, tem medo de mostrar-se diante dos outros. Levanta-se a temperatura: se torna furioso por cada pequeno mal-entendido. Se ira com quem queria somente consolá-lo, observam que está agitado.
Os psicólogos falam de uma “idéia fixa”. Os livros ascéticos de “vontade própria”. Caracterizam-na como um grande perigo e aconselham de aniquilá-la radicalmente. A expressão “vontade própria” encontra dificuldades. A nenhum jovem agradaria escutar dizer que deve destruir a própria vontade. Responderá ceticamente: “Então o que resta de mim? Um sombra!”. Por outro lado devemos notar que os autores espirituais sérios, começando com São Bento, indicam a vontade própria como um vício fundamental, causa de outros vícios. Segundo São Teodoro Estudita, os superiores religiosos tem como dever primário o de “romper a vontade própria dos seus súditos”. Isto desencoraja. Infelizmente alguns o compreendem em sentido negativo. Duas amigas, duas moças vivazes, estudavam juntas. Uma delas entrou no mosteiro. Depois do noviciado a outra foi encontrá-la mas não mais a reconheceu. Qualquer coisa que ela lhe propunha respondia com voz flexível: “Pedirei á madre superiora”. Depois falavam da situação do mundo. A noviça respondia: “As nossas irmãs vêem as coisas assim”. A amiga não pode mais se controlar e disse com voz forte e alterada: “o que fizeram contigo, uma sombra!”. Então também nós nos perguntamos: se deve compreender dessa maneira a destruição da vontade própria? Seria um desvio dos primeiros princípios da moral cristã. Esta tem o objetivo de formar uma vontade forte. Para chegar à santidade, escreve São João Crisóstomo, basta querer. Mas como poderemos querer se destruímos a vontade? Vemos que aqui há um mal entendido. Aceitamos as expressões destes antigos autores espirituais, mão não nos rendemos conta do que querem dizer.
O que é na verdade a “vontade própria” de que tanto falam os ascetas? Um dos autores que fala mais precisamente dela é São Doroteu de Gaza, famoso padre espiritual do VI século. Escreveu belíssimas exortações sobre a vida espiritual. Acrescenta-se também a “Vida de São Dositeu”, seu fiel filho espiritual. Este era muito doente e morreu jovem, mas alcançou a santidade por ter destruído a vontade própria. Como conseguiu? Muito simples.
São Doroteu parte da experiência de que cada dia nos vem em mente muitos pensamentos sábios e imprudentes,bons e maus. Ninguém jamais se tornou sábio somente por ter tido um pensamento sábio, do mesmo modo criminoso pelo fato de ter pensado em atirar em alguém. Este pensamento se torna perigoso quando livremente se entretém com ele e começa-se a alimentá-lo. Torna-se assim como um micróbio que causa a febre espiritual. A vida espiritual se desenvolve num contínuo combate aos pensamentos. Devemos estar prontos em saber distinguir, em manter os bons pensamentos e rejeitar logo de imediato os maus e inúteis. É fácil? Nem sempre. Algumas vezes nos vem um pensamento que é na verdade criminoso. Shakespeare, mestre na descrição psicológica, nos apresenta o drama de Otelo, o mouro de Veneza[1] sendo-lhe sugerido que a sua mulher fosse infiel. Otelo cede a esta sugestão, alimenta-a, encontra sinais para prová-la e no final se torna assassino de uma mulher inocente. Que erro cometeu? É inevitável que nos venham em mente tantas suspeitas e maus pensamentos, mas se tornam maus quando alguém se entretém com eles e busca comprovar que são justos. E quanto mais nos entretemos com eles, tanto mais eles adquirem força dentro de nós. Tal perverso hábito de se convencer que um pensamento mau é bom é chamado de “vontade própria” pelos autores espirituais. As pessoas prudentes aconselham esquecer estas idéias venenosas que levam à própria destruição. Mas não nos convencem. Quem pode ajudar a pessoa? A vontade própria a destruiu.
Suprimir a vontade própria, na linguagem dos autores espirituais, não significa diminuir a vontade livre, mas reservá-la para boas iniciativas. Uma vontade forte é um dom de Deus. Do mesmo jeito é um intelecto que raciocina. O problema está quando ocupa-se de coisas insensatas. Dado que o homem se engana facilmente, se aconselha revelar os próprios pensamentos a um bom diretor espiritual. Isto não significa contar tudo o que pensamos, mas somente os pensamentos que nos incita a segui-los. Também um médico sábio que deve fazer uma séria intervenção cirúrgica pede a opinião dos colegas. Do mesmo modo age a pessoa prudente quando lhe chegam pensamentos que pedem com insistência de serem seguidos. Eles não devem se tornar micróbios que levam a uma febre espiritual. Estes autores estão de acordo que com a ajuda de Deus temos a força suficiente para conservar um coração sadio, tranqüilo, pronto para todo bem.
Tomáš Špidlík
[1] Otelo, o Mouro de Veneza é uma obra de William Shakespeare escrita por volta do ano 1603. A história gira em torno de quatro personagens: Otelo (um general mouro que serve o reino de Veneza), sua esposa Desdêmona, seu tenente Cássio, e seu sub-oficial Iago. Por causa dos seus temas variados — racismo, amor, ciúme e traição - continua a desempenhar relevante papel para os dias atuais, e ainda é muito popular.

