8 de janeiro - Epifania do Senhor – Mt 2,1-12


A revelação do Senhor e a santificação do mundo
No Oriente médio no verão as pessoas preferem dormir no terraço. Aqueles que não conseguem adormecer olham as estrelas e, pela posição delas no céu, buscam de adivinhar a hora. Mas quem olha as estrelas é sempre tentado de adivinhar também a sorte dos homens.
Também hoje são muitos que procuram os astrólogos para saber alguma coisa do próprio futuro. A astrologia era muito difundia no final da antiguidade, porque era comum uma visão fatalista do mundo, que supõe todo o universo dirigido por uma única lei estável e inexorável. O movimento das estrelas seria a sua manifestação. Por isto era necessário viver em concordância com ele. Quando, por exemplo, o antigo rei da Babilônia e da Síria iam para a guerra, dispunham os seus generais e os grupos de soldados de modo que a posição deles correspondesse àquela dos planetas. Somente assim esperavam de vencer a batalha.
Os Padres da Igreja escreveram contra o fatalismo, porque o viam em oposição direta contra a pessoal providência divina. Como podemos depender das estrelas? Santo Inácio de Antioquia, que vinha de uma região em que a astrologia era muito difundida, nota que Jesus não nasceu “sob a sua estrela”, mas a estrela, pelo contrário, veio até onde ele estava. Portanto, conclui santo Inácio, os homens não devem obedecer às estrelas. São eles, pelo contrário, a estarem sob o domínio dos homens. Para nossa mentalidade uma tal declaração soa muito audaz. Para compreendê-lo na mentalidade dos Padres, é útil ler o pequeno opúsculo de são Gregório de Nissa Contra o destino. Trata-se de uma discussão com um fatalista. Este mostra a sua opinião do seguinte modo: o mais perfeito é causa daquele que é menos perfeito e  influi sobre si mesmo. Os movimentos das estrelas são mais ordenados do que a desordem humana. Por isso as estrelas influem sobre nós e nós devemos nos submeter aos seus sinais.
A resposta de Gregório é simples, admite que é verdade que o mais perfeito influi sobre o que é menos perfeito. Mas como fica a situação para o nosso caso? Quem é mais perfeito, o homem ou as estrelas? Certamente a pessoa humana, porque foi criado á imagem de Deus. Exerce assim um maior influxo sobre as estrelas do que se fosse o contrário. Ele governa o universo e não é escravo do mundo irracional. Este domínio do homem sobre as estrelas não se imagina de uma maneira técnica, mas espiritual: o mundo é nosso súdito, segundo o grau da nossa obediência a Deus.
O cristianismo corrigiu muitas crenças sobre o mundo. Os povos primitivos tinham medo do mundo. Circulavam mitologias sobre territórios misteriosos onde ao homem não era permitido entrar. Temiam também as florestas obscuras onde habitavam as fadas e outros seres mágicos.
Dessa questão se ocuparam abundantemente os Padres da Igreja, mas de um ponto de vista teológico e moral. O pecado introduziu no universo as forças do mal, a ascese  e a oração buscam de superá-las. Segundo a terminologia do tempo, os monges iam rezar no deserto para combater os espíritos malignos dos ares. A expressão provém de São Paulo (cf. Ef 2,2). Nas antigas imagens isto é representado de uma maneira muito material. Observamos os demônios  que voam em volta da cela dos monges. O verdadeiro sentido de tais imagens deve ser espiritual. O mundo é como um espelho da nossa relação com Deus. No paraíso, tudo servia ao homem inocente, mas desde quando começou a se rebelar contra o Criador, o mundo se rebela contra ele e está cheio de forças contrastantes. Todavia ele pode se purificar  com a oração e o jejum. As antigas vidas dos santos ilustram isso com contos onde os animais selvagens, leões, serpentes vinham servir o homem de Deus. É o retorno ao paraíso.
Purificar o mundo é um programa negativo, mas que tem o  seu aspecto positivo: santificar o mundo. De modo litúrgico isto é expresso pelas bênção da água, do pão, das casas, etc. O cume de tais bênçãos está nos sacramentos. Na eucaristia, o alimento se torna aquilo que deve ser espiritualmente: nutrimento da alma. A Igreja reconhece sete sacramentos. As outras bênçãos as chamamos de “sacramentais”: a água benta, os rosários, as imagens sacras, as  medalhas, as cruzes... Alguns admoestam para não se exagerar nessas coisas, para não cair na superstição. Uma imagenzinha de são Cristóvão no carro não substitui a nossa oração. E a confissão e a comunhão são certamente um ato religioso muito mais importante do que beijar as imagens num lugar de peregrinação.
Por outro lado, devemos evitar o desprezo das devoções populares. O homem simples ama mais o símbolo, um gesto do que palavras. A um intelectual convém rezar um salmo quando entra na igreja. Mas uma simples velhinha exprime melhor a sua confiança na ajuda de Deus acendendo uma vela diante da imagem de Nossa Senhora ou beijando-a. O uso dos objetos sacros não deve ser um talismã que traz sorte, mas um símbolo da fé que crê que a nossa oração e a da Igreja santifica o mundo visível a fim de que este sirva para o nosso bem.
Deus criou tudo o que existe com a sua palavra. Viu que tudo era bom. As palavras que usamos abençoando os objetos se conectam com a primeira palavra criadora de Deus, exprimem o desejo que tudo retorne à sua primeira destinação para servir ao bem, seja material que espiritual. Então por meio das nossas orações o mundo se tornará o que significa o nome da festa da Epifania: uma revelação do Senhor.
                                                                                                                              Tomáš Špidlík

 
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