9 de janeiro - BATISMO DO SENHOR (Mc 1,7-11)



O batismo

                É válido o batismo dos protestantes?  Alguém se perguntou sabendo que uma pessoa se fez batizar para se tornar católico. A pergunta demonstra pouca instrução ecumênica e religiosa e o desconhecimento de duas verdades do nosso catecismo. A primeira é que o batismo validamente conferido não se repete, é conferido uma vez para sempre. A segunda verdade é que o batismo em certas circunstâncias pode ser conferido por toda pessoa, até mesmo por um não crente, se com este ato quer fazer aquilo que a igreja entende fazer: que o batizado se torne cristão e que se use o rito estabelecido para este sacramento, a infusão da água ou a imersão pronunciando ao mesmo tempo a fórmula: “eu te batizo em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”. Se o rito foi feito diferentemente, o sacramento é obviamente inválido, ou pelo menos duvidoso. Neste caso se repete sob condição: “Se não é batizado, eu te batizo”. Se alguém foi batizado por um católico ou  por um protestante ou por um leigo esta frase vale em todos os casos se por distração, por exemplo, foi esquecido ou deformado qualquer parte essencial do rito. Tal repetição condicionada é motivada pelo fato que se trata de uma ato sacramental muito importante que assim queremos estar certos da sua validade.

                O batismo é uma ação litúrgica que torna o homem cristão. Com isto não significa que não existam certas semelhanças com outras realidades. Nas outras religiões, como também no Antigo Testamento, existem as abluções rituais. Amamos as coisas puras, por isto as lavamos. A vida cotidiana trás poeira e poluição. Se o corpo se suja, se lava. Mas se pode purificar também a alma? Parece impossível. A lavagem supõe que a poeira e a poluição estejam na superfície. A tinta caída na mão se lava com sabão. Pior se ela caiu na roupa, onde, penetrando no tecido, se torna mais difícil de tirar. Quanto mais a sujeira penetra, tanto mais difícil é a lavagem. O relógio cai na lama. Se a água suja permanece na superfície não acontece nada, mas se ela penetra dentro, o mecanismo se estraga irreparavelmente. Mas não é mais trágico se a poluição moral, a malícia, penetra no coração do homem, no seu interior?

Algumas metáforas usadas pelos Padres da Igreja para a purificação batismal parecem fáceis. A mais freqüente é esta: com a criação foi impressa na alma humana a imagem de Deus; o pecado a cobriu de lama, formando uma horrível máscara, de modo que a imagem original não se vê mais. A água batismal lava a sujeira e a alma recomeça a resplandecer na beleza com a qual foi criada. É sem dúvida um belo simbolismo. Mas pobre de nós se quiséssemos interpretá-lo de modo muito superficial. Por isto já no Antigo Testamento os profetas bradavam contra aqueles que queria contentar-se com as abluções rituais prescritas pela lei. Advertiam que a verdadeira purificação está no coração, que se trata de uma conversão interior. Mas como devemos agora considerar válido o batismo das crianças que ainda não são capazes de uma consciente conversão interior?

Ninguém pode ser assim tão ingênuo que creia que a água possa penetrar na alma. No notável drama de Shakespeare Macheth, o assassino lava as mãos, mas tem sempre a impressão que ficam ainda manchadas de sangue. Em algumas religiões se crê que existam certas águas que tem a capacidade de penetrar na alma. Na Índia se atribui esta força às nascentes do Ganges. Isto é pensável supondo que nestas águas exista uma força divina. De tal maneira explicamos a diferença entre o batismo cristão e o batismo conferido por João Batista. Perguntaram a ele por quê batizava. Responde ele: “Eu batizo com água. Mas em meio a vós está alguém que vós não conheceis... Vi o Espírito descer como uma pomba do céu e pousar sobre ele” (Jo 1,26.32).

O próprio Jesus fala da união da água e do Espírito no batismo: “Se alguém não nasce da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus” (Jo 3,5).

No renascimento da água e do Espírito divino não se deve esquecer a alusão à criação do mundo: “A terra era informe e deserta e as trevas recobriam o abismo e o espírito de Deus pairava sobre as águas” (Gn 1,2). A água originária é imagem do vazio, mas esconde também outra possibilidade. É o primeiro elemento da vida. O espírito de deus evoca por ela a beleza das plantas, dos animais, etc. Uma coisa semelhante acontece no batismo. O homem entra na água e ele mesmo é como a água. Trás consigo enormes possibilidades. O Espírito o chama à vida. No colóquio com Nicodemos, Jesus fala do batismo como de um novo nascimento. Os Padres falam também de uma nova criação. O homem recebe aqui um novo valor, uma nova força, novo conhecimento, é tudo novo.

                A primeira criação acontece só com a Palavra de Deus. Deus disse e assim se fez. A segunda criação não é do nada, mas deve purificar do pecado o homem já existente; segue portanto uma outra lógica, a lógica da redenção, da cruz. Tudo isto é simbolizado com a imersão na água. Por isto o batismo é prefigurado com a narrativa veterotestamentária sobre Jonas. Jogado na água, Jonas estava condenado à morte, mas a água o engoliu para restituí-lo à vida. Esta prefiguração se realizou em Jesus que depois de três dias no sepulcro retornou à vida. De maneira simbólica acontece também o mesmo no nosso batismo, como escreve São Paulo: “ou não sabeis que fomos batizados na sua morte? Se formos, na verdade, unidos a ele com uma morte semelhante à sua, o seremos também na sua ressurreição” (Rm 6,3.5).

Assim o batismo é o primeiro e fundamental sacramento cristão. Infelizmente não lhe atribuímos a devida atenção. Na antiguidade cristã se batizavam os adultos depois de uma longa preparação. O próprio batismo se fazia com grande solenidade.

Hoje batizamos muito mais as crianças. Se alguém faz a objeção de que eles não podem compreender, respondemos: o rito do batismo não é a entrada num partido político ou num movimento literário. É o início de uma vida nova. Vivemos antes de nos apercebemos disso e de compreendê-lo. Mas esta compreensão deve acontecer mais tarde.

Por isso é muito adapta a devoção que se propaga em tempos recentes: a renovação das promessas batismais. Externamos assim conscientemente o que prometeram por nós aqueles que nos levaram ao batismo, nos rendemos conta da nossa identidade, daquilo que nos tornamos. É a consciência que Cristo nos purificou para viver com Ele e que nós desejamos conservar esta pureza. Mas se pecamos novamente? O batismo não se repete. A sua força age ainda dentro de nós, nos conduz ao sacramento da reconciliação, à penitência, à conversão. Isso acontece muitas vezes? Muito mais do que queremos. A vida trás consigo poeira e poluição. Mas continuamente nos purificamos. Vivemos, portanto, até à morte no sinal do batismo recebido no início.

                                                                                                                                Tomáš Špidlík

 
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