A fé salva da morte – Curando uma mulher de um mal que a tormenta a anos e chamando à vida uma menina, Jesus se revela como o Senhor da vida e da morte. Para receber a vida do qual ele é a fonte, precisamos estar unidos a ele por meio de uma fé que não se deixa afetar pelo medo.
Naquele tempo, 21Jesus atravessou de novo, numa barca, para a outra margem. Uma numerosa multidão se reuniu junto dele, e Jesus ficou na praia. 22Aproximou-se, então, um dos chefes da sinagoga, chamado Jairo. Quando viu Jesus, caiu a seus pés, 23e pediu com insistência: “Minha filhinha está nas últimas. Vem e põe as mãos sobre ela, para que ela sare e viva!”24Jesus então o acompanhou. Numerosa multidão o seguia e comprimia. 25Ora, achava-se ali uma mulher que, há doze anos, estava com hemorragia; 26tinha sofrido nas mãos de muitos médicos, gastou tudo o que possuía, e, em vez de melhorar, piorava cada vez mais.27Tendo ouvido falar de Jesus, aproximou-se dele por detrás, no meio da multidão, e tocou na sua roupa. 28Ela pensava: “Se eu ao menos tocar na roupa dele, ficarei curada”. 29A hemorragia parou imediatamente, e a mulher sentiu dentro de si que estava curada da doença. 30Jesus logo percebeu que uma força tinha saído dele. E, voltando-se no meio da multidão, perguntou: “Quem tocou na minha roupa?” 31Os discípulos disseram: “Estás vendo a multidão que te comprime e ainda perguntas: ‘Quem me tocou’?”32Ele, porém, olhava ao redor para ver quem havia feito aquilo. 33A mulher, cheia de medo e tremendo, percebendo o que lhe havia acontecido, veio e caiu aos pés de Jesus, e contou-lhe toda a verdade. 34Ele lhe disse: “Filha, a tua fé te curou. Vai em paz e fica curada dessa doença”. 35Ele estava ainda falando, quando chegaram alguns da casa do chefe da sinagoga, e disseram a Jairo: “Tua filha morreu. Por que ainda incomodar o mestre?” 36Jesus ouviu a notícia e disse ao chefe da sinagoga: “Não tenhas medo. Basta ter fé!” 37E não deixou que ninguém o acompanhasse, a não ser Pedro, Tiago e seu irmão João. 38Quando chegaram à casa do chefe da sinagoga, Jesus viu a confusão e como estavam chorando e gritando.39Então, ele entrou e disse: “Por que essa confusão e esse choro? A criança não morreu, mas está dormindo”. 40Começaram então a caçoar dele. Mas, ele mandou que todos saíssem, menos o pai e a mãe da menina, e os três discípulos que o acompanhavam. Depois entraram no quarto onde estava a criança. 41Jesus pegou na mão da menina e disse: “Talitá cum” — que quer dizer: “Menina, levanta-te!” 42Ela levantou-se imediatamente e começou a andar, pois tinha doze anos. E todos ficaram admirados. 43Ele recomendou com insistência que ninguém ficasse sabendo daquilo. E mandou dar de comer à menina.
Não tenhas medo. Basta ter fé!
A adesão a Cristo é a fé, e o seu aspecto complementar é a esperança. Crer significa ver que além da cortina do mundo visível existe um outro mundo, e além da vida terrena a vida eterna. A esperança é a confiança que esta outra vida será nossa plenamente. Por isto no vocabulário bíblico crer e esperar são o mesmo vocábulo.
Para poder esperar é necessário viver. O que significa a realidade para um morto? Nada. Por isto os cantos e as reflexões sobre a morte são pessimistas: se chora pela perca da esperança. Cristo, pelo contrário, diz ao pai da filha morta: Crê!
É uma fé que se prega somente no cristianismo ou também nas outras religiões? Todos os povos possuem as suas idéias sobre vida depois a morte, mas muitas vezes não dão esperança, somente um pouco de consolação para quem faz a esperiência da perca de uma pessoa cara.
Escreve N. Berdjaev[1] que a nobreza e a profundidade de uma confissão religiosa se mede pela atitude que tem diante da morte. A atitude cristã se expressa com uma palavra: “Crê!”. Crê que a tua vida em Cristo não tenha fim.
A criança não morreu, mas está dormindo
Sobre os túmulos se encontra muitas vezes a inscrição: “Aqui dorme com sono eterno...” Porque se compara a morte ao sono? O homem que dorme não está morto; não percebe o que acontece em volta dele, ma no sono a sua vida e energia se reforçam e crescem, e sabe que despertará. Também se cada metáfora é parcial, é a imagem da esperança cristã.
Alguém conta uma piada: “Falamos dos mortos que dormem, mas eles falam o mesmo de nós!” Nisto existe uma certa parte de verdade. Dormindo, muitas vezes se sonham situações que parecem reais, que parece que se vê e se sente realmente aquilo que acontece. Segundo os autores espirituais é também assim com a nossa vida terrena: na verdade, é tudo verdadeiro o que escutamos e vemos? Aqueles que estão mortos vêem o verdadeiro rosto da verdade: morrem aparentemente, mas na realidade despertam para viver de verdade, e a vida passada parece somente um breve sonho para eles. O sono é a metáfora cristã da morte: a morte com Cristo não destrói a vida, mas a reforça e a faze ressurgir.
Menina, levanta-te!
Quando alguém acorda, abre os olhos e começa a pensar e a decidir. Na vida despertamos milhares de vezes, ou melhor, podemos dizer que toda a vida é um longo e progressivo despertar. E não somente do sono.
As crianças pequenas despertam para o interesse e para o conhecimento; descobrem gradualmente o mundo, e começam a bombardear de perguntas os pais com mil porquês?. Quanto mais o jovem é desperto, mais a sua ânsia de saber. Quando este processo se dá lentamente dizemos que a criança é retardada.
Mas antes ou depois na vida a todos chega uma espécie de cansaço como um senso de saciedade de sensações e de interesse. É um dos sinais da senilidade que preanuncia a morte; para alguns pode ser precoce, enquanto que para outros conservam até a tarda idade a juventude espiritual.
Mas não é importante tanto estar despertos no conhecimento do mundo terreno, como, na morte, despertarmos no conhecimento do mundo divino, até quando Jesus disser: levanta-te.
Tomáš Špidlík
Oração
“Talitá cum”. Senhor Deus, pronuncia também sobre nós esta palavra de ressurreição, como um dia teu Filho a pronunciou sobre uma menina que tinha deixado de viver. Tu que não criastes a morte, dai-nos participar da vida que provém do teu Filho, o Cristo Jesus, nosso Senhor.
[1] Nikolaj Aleksandrovič Berdjaev, filósofo russo (1874-1948), a sua filosofia é uma das mais profundas afirmações do existencialismo cristão, influenciado significativamente pela obra de Dostoeviskij


