As testemunhas escolhidas por Jesus – O Cristo chama alguns homens para trabalharem com Ele na salvação dos irmãos e para a sua libertação do mal. Mas um dos doze trairá a sua confiança. Recordando este fato, o evangelista sublinha a livre fidelidade pela qual o homem deve responder ao chamado divino.
Naquele tempo, 13Jesus subiu ao monte e chamou os que ele quis. E foram até ele.14Então Jesus designou Doze, para que ficassem com ele e para enviá-los a pregar,15com autoridade para expulsar os demônios. 16Designou, pois, os Doze: Simão, a quem deu o nome de Pedro; 17Tiago e João, filhos de Zebedeu, aos quais deu o nome de Boanerges, que quer dizer “Filhos do trovão”; 18André, Filipe, Bartolomeu, Mateus, Tomé, Tiago, filho de Alfeu, Tadeu, Simão, o cananeu, 19e Judas Iscariotes, aquele que depois o traiu.
Jesus subiu ao monte e chamou os que ele quis
Tempos atrás saiu um livreto satírico: “O quinto evangelho”, onde o autor colocava na berlinda certas idéias exageradas sobre a modernização da Igreja. Havia uma cena onde Jesus desce do monte e preside uma assembléia em que o próprio povo através do voto elege os doze apóstolos. Muitas vezes se fala em democratização da Igreja. Isto é certo: como sociedade feita por homens, a Igreja aceita as regras correntes na sociedade do seu tempo. Mas não se pode restringir em estruturas humanas o mistério do amor divino e nem mesmo do amor humano. A eleição divina não é um ato administrativo, que segue um regime autoritário ou democrático. É a livre escolha do amor, ao qual se responde livremente com amor. De fato no matrimônio, união baseada no amor, se recorre à lei e ao direito matrimonial somente quando o amor acabou.
A vocação aos ministérios na Igreja como o sacerdócio, o diaconato ou a dignidade episcopal, são revelações do amor de Cristo e com este espírito devem ser acolhidas.
Então Jesus designou Doze
Alguns vêem no número doze um símbolo sagrado, a expressão da perfeição. Mas o que conta é a origem bíblica do número: os apóstolos são doze como as doze estirpes de Israel. O próprio Jesus fez alusão a este nexo (Mt 19,28). Doze tribos formam todo o povo de Israel. A Igreja é destinada a todo o mundo, por isso são enviados ao mundo doze apóstolos, mandados a todos os povos e a todas as estirpes. Depois da descida do Espírito Santo, os doze foram a todo o mundo conhecido. A missão universal da Igreja se resume numa palavra grega de um trecho do Credo: “Creio na Igreja una, santa, católica (universal) e apostólica”.
Se para alguém parece injusto que Deus escolha livremente os homens para a missão apostólica, a circunstância é equilibrada pelo fato que Deus escolhe a todos para a salvação. Do primeiro ao último, cada homem está próximo ao especial amor de Deus.
Para que ficassem com ele e para enviá-los a pregar, com autoridade para expulsar os demônios
Uma antiga fábula conta que um bom imperador sofria porque nem todos os seus súditos tinham um chapéu para se proteger da chuva. Confiou esta preocupação ao seu ministro, que por sua vez falou com os administradores e estes informaram a policia. A policia então prendeu todos aqueles que caminhavam sem chapéu, e solenemente foi anunciado ao imperador que no seu império não havia mais nenhum cidadão sem chapéu.
A fábula ironiza como funciona o poder, quando uma ordem é transmitida do vértice para a base. Não acontece algo semelhante na Igreja, que vive sobre a palavra anunciada a dois mil anos pelos apóstolos? É uma pergunta legitima se olhamos a Igreja comente com o olhar humano. Mas o poder transmitido por Cristo não é como aquele que passa dos governantes aos empregados. Cristo não manda os apóstolos pregarem “no seu lugar”, mas para que estejam “com Ele”. Na verdade, ele está como eles, está continuamente presente e sempre age, mesmo parecendo que a ação seja dos homens. Mas o poder destes homens depende somente do fato que são membros do único Corpo místico de Cristo.
Tomáš Špidlík
Oração
Senhor Jesus, escolhestes doze homens para que ficassem contigo, anunciassem a tua palavra e lutassem contra o mal. Um deles te traiu, outro te renegou. Faz com que permaneçamos fiéis à nossa vocação e, se cairmos, dai-nos coragem de retornar a ti, que continuas a nos chamar hoje e sempre. Amém!

